A raiva possui diversos reservatórios (animais que carregam a doença). De acordo com um artigo do Boletim Epidemiológico Paulista: “A Classe Mammalia possui cerca de 4.650 espécies, sendo todos susceptíveis ao vírus da raiva porém, como reservatórios de importância em saúde pública, são mencionados duas ordens: Carnivora e Chiroptera”. Ou seja: os carnívoros em geral e os morcegos. “No ciclo urbano, a principal fonte de infecção é o cão e o gato. No Brasil, o morcego é o principal responsável pela manutenção da cadeia silvestre. Outros reservatórios silvestres são: raposa, coiote, chacal, gato do mato, jaritataca, guaxinim, mangusto e macacos” (Ministério da saúde).
Morcegos x Raiva
Os morcegos são conhecidos por frequentarem tanto o meio urbano quanto o rural e serem grandes suspeitos em se tratando da doença Raiva. O site do Ministério da Saúde aponta que: “Não se sabe ao certo qual o período de transmissibilidade do vírus em animais silvestres. Entretanto, sabe-se que os quirópteros (morcegos) podem albergar o vírus por longo período, sem sintomatologia aparente”. Ou seja, um morcego mesmo com aparência saudável pode ser um reservatório de vírus. A revista Scientific American ressalta que “morcegos provocam metade dos casos de raiva” no Estado de São Paulo.
A forma mais comum de contágio é expor seu sangue à saliva do animal contaminado (sendo por mordidas e lambidas) ou mesmo por arranhões. Maria Helena Varella Bruna coloca a importante informação sobre a disseminação dessa doença: “embora o vírus esteja presente na urina, fezes e sangue dos animais infectados, não costuma oferecer risco maior de transmissão, porque não consegue sobreviver por muito tempo fora do organismo do hospedeiro”. E acrescenta que: “Exceção feita aos mamíferos, não há notícia de que outra classe de animais possa transmitir o vírus da raiva. Na maior parte dos casos, cães e morcegos são os animais que mais transmitem a doença pela saliva carregada de vírus”. E que há “casos de transmissão por via respiratória, quando uma pessoa não vacinada inala o ar carregado de vírus em cavernas infestadas de morcegos, por exemplo”. Ainda sobre morcegos e transmissão, a autora coloca que existe a possibilidade da raiva ser transmitida entre humanos para outros humanos: “entretanto, embora bastante raros, há casos de transmissão inter-humana pelo transplante de tecidos ou de órgãos infectados (especialmente pelo transplante de córnea)”. Isso oferece uma segunda situação de risco: a escassez de exames antes de transplantes médicos.
Os morcegos são responsáveis por transmitir raiva pra muitos animais domésticos e de fazendas, atacando gado de corte e leite. O site BeefPoit aponta que “para o controle da raiva dos herbívoros é necessária a adoção, de forma sistemática e contínua, de duas medidas: a vacinação do rebanho e o controle da população de morcegos hematófagos (Desmodus rotundus)” e o site da empresa Ambiental Clean acrescenta que, apesar da grande má fama que atinge esse mamífero voador, “só uma pequena porcentagem de morcegos estejam infectados com raiva”.
Transmissão
A forma mais comum de contaminação pelo vírus da raiva trata-se ”através do contato com a saliva de animais doentes, através de mordeduras, arranhões ou lambeduras em pele lesada ou mucosa” (Ambiental Clean) e “embora todas as espécies de morcegos possam atuar como transmissores do vírus da raiva, o morcego hematófago é considerado, um dos principais responsáveis pela transmissão da doença, podendo infectar não só bovinos, eqüinos como também outras espécies de morcegos”. Dessa forma temos uma cadeia, onde “todos os animais infectados com a raiva, inclusive o próprio morcego, podem transmitir (...) para o homem através de suas fezes e no local onde vivem, como cavernas e forros. (Ambiental Clean).
Apesar do morcego hematófago ser o principal transmissor entre esses animais, os morcegos frutíferos não estão totalmente descartados. A Revista de Saúde Pública fez um artigo onde destaca que “quatro casos positivos para a raiva foram diagnosticados em morcegos de três espécies de molossídeos (um Molossus molossus, um Nyctinomops laticaudatus e dois N. macrotis)” no Estado de São Paulo, sendo o segundo citado (Molossus molossus) uma espécie muito comum em Santa Catarina no interior de casas antigas, beiradas de telhados e frequentador noturno de bebedouros para beija-flores. De acordo com Gustavo Laredo do site do programa Globo Rural, todas as espécies podem transmitir o vírus pela mordida, já que “todos os morcegos podem carregar o vírus da raiva, mas para que ocorra a transmissão é necessário o contato da saliva com o sangue. Por isso os vampiros, que mordem os animais, são os melhores transmissores”. Valendo ressaltar que “qualquer mamífero pode transmitir a doença: gato, vaca, cavalo, coelho, morcego(...). A transmissão ocorre, principalmente, por causa das mordidas dos animais, mas podem acontecer em caso de arranhões ou até lambidas”. (G1).
Sobre a transmissão da raiva de humanos para humanos, Maria Helena Varella aponta em seu site que: “é considerada remota a possibilidade de que o vírus da raiva possa ser transmitido por via sexual, da mãe para o feto durante a gestação”. A autora acrescenta que após a vacinação “pessoas que pertencem a grupos de risco e, portanto, mais vulneráveis à infecção, devem tomar a vacina contra raiva e acompanhar a resposta do sistema imunológico para saber se a produção de anticorpos atingiu os níveis adequados. Conforme o caso, doses de reforço devem ser repetidas a cada dois anos”.
OBRIGATORIEDADE DA VACINAÇÃO
Na cidade de Florianópolis, existe uma lei sobre a vacinação de animais contra a raiva (Lei Complementar número 94, de 18 de dezembro de 2001). O site do município apresenta no artigo 18 que: “todo proprietário de animal é obrigado a vacinar seu cão ou gato contra a raiva e leptospirose, observando o período de imunidade, de acordo com a vacina utilizada”. A mesma lei foi aprovada pelo município de Palhoça no ano de 2009. De acordo com a Lei Municipal 13.131, cães e gatos de São Paulo devem tomar vacina antirrábica todos os anos. Não existe uma lei de abrangência nacional de obrigatoriedade da vacinação contra a raiva, mas diversos municípios adotaram suas próprias leis como medida de prevenção.
Os animais colocados como prioridade nas vacinações são cães e gatos (por haver maior convivência dos mesmos com humanos). O site Destak Pet afirma que as vacinações para esses animais são diferentes: “para cães as vacinas "V8" ou "V10" são fundamentais, já para os gatos as "V3" ou "V4" são muito importantes. A escolha da mais adequada deverá ser feita pelo médico veterinário de sua confiança.”
Porcentagem de animais vacinados no Brasil
O cenário no Brasil já foi mais agradável na prevenção dessa doença. O Ministério da Saúde coloca que: “no período de 2012 a 2016, as coberturas vacinais de cães sofreram variações na quase totalidade dos municípios do país, sendo que em alguns anos, estiveram abaixo dos 80% da população canina estimada vacinada” e completa com “os estados de Santa Catarina e Rio Grande do Sul desde 1995 não realizam campanhas massivas de vacinação canina e felina anual”.
De acordo com o site do Ministério da Saúde: “a raiva é de extrema importância para saúde pública, devido a sua letalidade de aproximadamente 100%, por ser uma doença passível de eliminação no seu ciclo urbano (transmitido por cão e gato) e pela existência de medidas eficientes de prevenção, como a vacinação humana e animal”. Restando apenas esperar pela volta das campanhas de vacinação dos animais domésticos, focando também em uma conscientização da população sobre a vacinação humana, de animais de fazenda e de animais reservatórios do problema em geral.
VACINAÇÃO HUMANA
No caso de humanos não vacinados, a raiva pode ser diagnosticada após o contágio, sendo necessário um tratamento de risco. O quadro “Saúde de A a Z” do portal do Ministério da Saúde apresenta uma cartilha apresentando o protocolo de tratamento da raiva humana, disponível clicando aqui. O mesmo site, aponta que: “a raiva é uma doença quase sempre fatal, para a qual a melhor medida de prevenção é a vacinação pré ou pós exposição”. Ainda no quadro Saúde de A a Z, a prevenção acaba sendo a melhor saída, pois a doença é letal e o tratamento após a doença se instalar é de “utilizar um protocolo de tratamento da raiva humana, baseado na indução de coma profundo, uso de antivirais e outros medicamentos específicos. Entretanto, é importante salientar que nem todos os pacientes de raiva, mesmo submetido ao protocolo sobrevivem”.
De acordo com Maria Helena Varella: “Vacinas antirrábicas agem estimulando a produção de anticorpos, em duas linhas: preventivamente, nas pessoas que pertencem a grupos de risco e nunca foram infectadas, ou então como recurso para deter a propagação do vírus rumo ao cérebro, quando há suspeita ou confirmação de que o contato com o vírus realmente existiu”. Ela também explica a diferença entre as duas vacinas atualmente disponíveis no mercado: “as produzidas em culturas de células diplóides humanas – consideradas mais seguras e eficazes, porque apresentam maior competência para fabricar anticorpos e menor incidência de reações adversas” e as “do tipo Fuenzalida-Palácio modificada, produzidas em tecido embrionário de camundongos recém-nascidos, inoculados com a cepa Pasteur de vírus fixo”.
Riscos da vacinação
De acordo com Varella: tanto uma quanto a outra (vacinas) podem ser aplicadas em qualquer idade e não têm contraindicação, mesmo durante a gravidez ou no período de amamentação”. O site do Governo Federal também coloca a vacinação contra a raiva sem nenhuma contra-indicação, salientando que “vacina contra raiva é gratuita e encontra-se disponível em toda a rede do Sistema Único de Saúde (SUS)”.
Já a redação do site Minha Vida acrescenta que: “sempre que possível, recomenda-se a interrupção do tratamento com corticoides e/ou imunossupressores ao ser iniciado o esquema de vacinação. Não sendo possível, a pessoa deve ser tratada como imunodeprimida”. A bula da vacina aponta pessoas com alergia aos componentes como contraindicadas e também “se você apresentar febre ou doença aguda a vacinação deve ser adiada”.(ANVISA)
Quem precisa tomar a vacina
O site do Ministério da Saúde cita os principais grupos de pessoas que precisam tomar a vacina de raiva humana: “médicos veterinários, biólogos, profissionais de laboratório de virologia e anatomopatologia para raiva, estudantes de Medicina Veterinária, zootecnia, biologia, agronomia, agrotécnica e áreas afins, pessoas que atuam na captura, contenção, manejo, coleta de amostras, vacinação, pesquisas, investigações ecopidemiológicas, identificação e classificação de mamíferos: e/ou animais silvestres de vida livre ou de cativeiro, inclusive funcionário de zoológicos, espeleólogos, guias de ecoturismo, pescadores e outros profissionais que trabalham em áreas de risco”. O Ministério da Saúde complementa que a vacinação preventiva: “simplifica a terapia pós-exposição, eliminando a necessidade de imunização passiva (soro ou imunoglobulina), e diminui o número de doses da vacina e desencadeia resposta imune secundária mais rápida quando iniciada a pós-exposição”. Além do público citado, o Ministério da Saúde faz a observação de que “pessoas com risco de exposição ocasional ao vírus, como turistas que viajam para áreas de raiva não controlada, devem ser avaliados individualmente, podendo receber a profilaxia pré-exposição dependendo do risco a que estarão expostos durante a viagem”.
A titulação deve ser repetida “a cada 6 meses” (Dive-SC). De acordo com o site Minha Vida, “são realizadas cinco doses, dados no dia da exposição e depois no terceiro, sétimo, décimo quarto e vigésimo oitavo dias após a exposição. O controle sorológico (titulação de anticorpos) é exigência indispensável para a correta avaliação da pessoa vacinada”. A sorologia deve ser feita em laboratórios especializados que trabalhem especificamente com o exame de titulação de anticorpos neutralizantes para a raiva.
A prevenção continua sendo a melhor maneira para evitar a disseminação de doenças, nesse caso a vacinação de animais acaba sendo indispensável, bem como a vacinação de pessoas consideradas casos de risco. Prevenir também abrange cuidados ao manusear animais silvestres e mesmo suspeitos de portarem a doença.
REFERÊNCIAS